Desbravadores do Abstracionismo

Décadas de 1950 e 1960

O panorama internacional das artes após a Segunda Guerra Mundial foi tomado por uma avassaladora onda de valorização do Abstracionismo, em movimento de intensa retomada das experiências e objetivos da primeira vanguarda européia.

Assim, a radicalidade de uma arte que, pela primeira vez no ocidente, havia se afastado da representação mimética da realidade, pondo-se livre da tradição milenar do figurativismo, encontrou novamente seu caminho a partir das conquistas de movimentos como o Suprematismo russo, o Vorticismo inglês, o Cubismo Sintético e Analítico de Picasso, Bracque e Gris, o Neo- Plasticismo de Mondrian, o Futurismo italiano e o trabalho de artistas isolados como Brancusi, Picabia, Man Ray, Kandinsky e outros. É neste período que se inicia no Brasil todo um processo de profissionalização e internacionalização do meio artístico, tanto no que diz respeito ao apoio e vinculação de artistas a galerias e marchands quanto ao ambiente crítico e teórico, na academia e na imprensa.

Um dos exemplos mais marcantes foi a criação, em 1951, da I Bienal Internacional de São Paulo, a mais antiga e constante exposição internacional das Américas, sob o patrocínio do empresário Francisco Matarazzo Sobrinho. Inspirada pela Bienal de Veneza e com 1.854 obras representando 23 países, a Bienal de São Paulo inaugurou uma nova fase de visibilidade e impacto dado à produção dos artistas expositores. As tendências e influências ali estabelecidas passavam a ser marcantes nos rumos da criação artística, bem como na aceitação pública de vertentes até então mantidas à margem da apreciação, em meios sociais não diretamente ligados ao ambiente intelectual. Se a compreensão e articulação de uma linguagem abstrata na arte era fronteira nova para o mundo ocidental, o mesmo não acontecia para aqueles que tinha na senda da autonomia visual a principal herança de sua cultura matriz: os Japoneses. Nenhuma outra cultura teve tão clara para si, ao longo de muitos séculos, as diretrizes para a manipulação dos elementos especificamente constitutivos do ‘vocabulário’ estético abstrato.

Os artistas nipo-brasileiros Handa, Takaoka, Okinaka, Higaki, Shigeto, Kaminagai, Shiró, Mori, Fukushima, Suzuki, todos eles figurativistas com variantes de estilo características, participaram da Bienal em sua primeira edição. Na segunda, apenas Kaminagai, Shiró e Mabe.

Este último, aliás, marca como ninguém a passagem da figura à forma pura. “Figuração e abstração são a mesma coisa. O Artista não precisa amarrar-se a nenhuma das duas”, declarou. O livre trânsito da arte tradicional japonesa entre a representação figurativa e o olhar abstrato, entre informalidade gestual e planejamento da composição, entre nuance sutil e cor intensa, tudo isto encontra vazão natural na obra pioneira da MABE, razão de seu reconhecimento no Brasil – tendo recebido o Primeiro Prêmio de Pintura Nacional da V Bienal, em 1959 – e também em inúmeras exposições e premiações no exterior. Entre elas, a da Primeira Bienal dos jovens de Paris, do Dallas Museum of Art e o Prêmio Fiat da Bienal de Veneza. 

Sua obra está presente em mais de 20 museus nacionais e internacionais de primeira importância, como o Fine Arts de Boston, o Nacional de Arte Moderna de Kyoto, o Moseo de Bellas Artes de Caracas, o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, o MAM do Rio, da Bahia e de São Paulo, o MASP, o MAC-USP e a Pinacoteca de Estado de São Paulo.

A obra de outros pintores nipo-brasileiros, como Tomie Ohtake, Shiró e Fukushima, também envereda pela abstração, com marcas individuais claramente reconhecíveis, mas também com inequívoca afinidade, sempre de algum modo ligadas a visualidade e a espiritualidade japonesas.

As ambigüidades entre forma e fundo se constroem na diferenciação entre grandes áreas planas (informadas e diferenciadas por texturas e camadas) em contraste com complexos registros de gesto que parecem evocar processos naturais, cósmicos e/ou biológicos: aglutinação, choque, expansão, divisão, tensão, crescimento, aceleração, germinação, torção, repouso, ruptura. A velocidade na aplicação da tinta em golpes certeiros de subjetividade e intuição se contrapõe às formas construídas, interrompidas, plenas de mistério quanto a sua origem na imagem e sua relação com o todo da composição. As vezes líricos, pungentes ou delicados, sempre dinâmicos e intensos, os planos pictóricos dos pintores abstratos nipo-brasileiros são identificáveis ao primeiro contato. Todos naturalizaram-se brasileiros, aptos a representar o país de adoção em exposições internacionais.

No caso de Ohtake, é importante ressaltar não só a vasta coleção de prêmios e exposições individuais e retrospectivas a ela dedicadas (como participações em sete Bienais, com salas especiais em duas delas; Bienais de Veneza, Córdoba, Medelín, Tóquio, Havana, entre outras), como também a atuação em diversas frentes de inserção das artes visuais, que vão de projetos gráficos para obras de poesia e literatura a grandes monumentos públicos, passando por todas as técnicas de impressão de obras pictóricas, que compartilham concomitante e assiduamente as conquistas atingidas na pintura de telas. Sua obra está presente nos principais museus nacionais e internacionais, tendo inclusive passado neste ano, a compor o acervo do Museu de Arte Contemporânea de Tokyo, Japão.

Fukushima está também identificado com a abstração gestual, com especial ênfase no intenso contraste cromático, nas variações de planos e texturas. Com sete participações em Bienais e nos principais salões de arte do país, diversos prêmios e medalhas, está presente em museus como os MAM do Rio e Curitiba, a Pinacoteca do Estado de SP, o MAC-USP, o Museu de Arte de Belo Horizonte, Museum of Modern Art of Latin America em Washington, Museu de Belas Artes do Japão (MOA) e na coleção Rockfeller, entre outros.

Como outros, Shiró iniciou sua carreira como figurativista, com forte tendência ao expressionismo e ao fauvismo. Aos poucos, a intensão expressiva e a vertigem gestual forma se sobrepondo aos temas identificáveis, os planos de cor se fundiram e diluíram em incontáveis camadas de sinais, contornos, amplas caligrafias secretas, gestos plenos de urgência e vitalidade dramática.

Confundem-se em suas telas a intenção pictórica – aberta em áreas e superfícies tratadas em profundidade – e o desenho, rasgado em linhas tensas, rudes e insistentes. Sua obra encontra-se de fato num caudaloso limbo entre a sugestão de aspectos da realidade (volumes, sombras, vultos) no limite do reconhecimento e da estilização, envoltos num tecido vibrante que confere vida ao plano pintado com alucinada intensidade. Não por acaso, é freqüente estabelecer sua vinculação aos assim chamados Expressionistas Abstratos. Participou das Bienais de São Paulo (quatro vezes, recebendo o Prêmio ‘Itamaraty’ na XX, em 1989), Paris, Córdoba, Menton e Havana. Expôs no Museu Guggenheim de Nova York, nos Museus de Arte Moderna de Paris, Osaka e Rio de Janeiro (em1965), tendo neste uma mostra individual.

Outros chegaram do Japão já quase na década de 60 com plena formação universitária e importantes participações vivenciadas e integrando-se ao ambiente vigente da produção abstracionista, como Kazuo Wakabayashi (Kobe, 1931) nos Grupos Babel e Delta, Bin Kondo (Manchúria, 1937) no Grupo Phases de Paris, bem como no grupo de vanguarda “Nova Escola de Tokyo”, em que estão Hisao Ohara (Karafuto, 1932 – Mirandópolis, 1989) e Tomoshige Kusuno (Yubari, 1935) além do escultor Yutaka Toyota (Yamagata, 1931) e da pintora Sachiko Koshikoku (Fukui, 1937).


Desbravadores do AbstracionismoBienal Internacional de São Paulo, década de 1960. (Dá esquerda para a direita) Massao Okinaka, T. Nomura, Massumi Tschuchimoto, Tomie Ohtake, Manabu Mabe, Tikashi Fukushima, Kazuo Wakabayashi, Kenichi Kaneko, Hisao Sakakibara, Teiiti Suzuki. Kichizaemon Takahashi e Walter Shigeto Tanaka (agachados).


Desbravadores do AbstracionismoConfraternização Salão Seibi