Os Atuais Artistas Nipo-Brasileiros

Década de 1960 à atualidade

O advento das Bienais e a conseqüente ampliação do leque de vinculações estéticas por elas proporcionada, refletiu-se imediatamente na produção Nipo-Brasileira, levada a cabo por uma geração agora nascida no país e formada nos mais renomados centros universitários, nas carreiras de Arquitetura, como Takashi Fukushima, Midori Hatanaka e Taro Kaneko; Artes Plásticas, como Mario Ishikawa, Ayao Okamoto, Lydia Okumura, Mimi Nii, James Kudo, Roberto Okinaka e Alice Shintani; Comunicação e Publicidade como Yugo Mabe. Vale Lembrar que a atuação dos artistas de origem japonesa se faz notar nos dois pólos da academia, como alunos e professores, formadores de toda uma nova leva de criadores. No caso de Futoshi Yoshizawa, artista japonês radicado no Brasil desde 1994, tem sua formação na Universidade de Artes de Mushashino – Design Têxtil – Tokyo, Japão.

Entre os artistas que fizeram a ponte entre a origem japonesa, a carreira docente e a produção artística propriamente dita, já no Brasil, destaca-se Tomoshige Kusuno (Yubari, 1935). Sua atuação contribuiu inclusive para que fossem definitivamente dirimidas as diferenças que a própria comunidade nipônica tendia a aplicar no tratamento dado aos nascidos no Japão e os ‘nisseis’, até então vistos como menos experientes e autorizados. Partindo da abstração, Tomoshige enveredou pela figuração crítica e polêmica. Participando de cinco Bienais (63, 65, 67, 76 e 83), 32 exposições individuais entre 55 e 91, no Brasil, Japão e Estados Unidos, da ‘Bienal de Jovens’ em Paris (65), da “Década de emergência” no Guggenheim de New York e da IV Bienal de Medelín, Colômbia (81) e da I Trienal Internacional de Osaka (90), além de inúmeras outras. Notabilizou-se também pela pesquisa da técnica como instrumento expressivo e orgânico ao discurso.

Costuma-se associar sua obra à de Mário Ishikawa (Presidente Prudente, SP, 1944), ambos, expoentes da assim chamada Nova Figuração, alinhada tanto ao Neo-Expressionismo quanto à Pop Art americana, em sua incorporação de ícones e técnicas gráficas da cultura de massas, de todas as formas de reprodutibilidade industrial, de ‘kitsch’ urbano, de referências à TV, ao Cinema, à Música Popular. Ishikawa participou das Bienais de 67 e 89, da exposição “Sex Artistas”, Rex Gallery & Sons, 67 (SP), das Éditions ET Comunications Marginales D’Amérique Latine – Maison de La Culture Du Havre, França (77), “Volta à Figura: A Década de 60” – Museu Lasar Segall, SP (79), “ Conteporary Brazilian Works On Paper” – Nobe Gallery e “Multiples By Latin- American Artists” – Franklin Furnace Arc, ambas em New York, em 79 e 83, respectivamente e “Gravuras do Brasil Moderno” – Toranomon Gallery, Tokyo, entre muitas outras.

Lydia Okumura, com suas pesquisas conceituais sobre a integração pintura/espaço apresentadas nas Bienais Internacionais de São Paulo (73, 77, 79 e 83) e na Bienal de Medelín (81), alcançou reconhecimento no cenário nacional e internacional a partir da década de 70, vindo a compor o acervo de vários museus nacionais e internacionais.

O processo de súbita e notável ‘desprovincianização’ do ambiente artístico brasileiro – da produção à crítica, como já observado – tornou possível a afloração e o amadurecimento de vertentes até então ausentes da arte feita no Brasil. Em linhas gerais, pode-se dizer que após a ênfase dominante da abstração e na busca de depuração da sintaxe visual, as questões ligadas ao significado, ao engajamento crítico, ao comentário da realidade em seus aspectos políticos, sociais, culturais e formais toma a frente, de modo fragmentário e profícuo. Hoje, tanto o eixo da pura articulação sintática abstrata, quanto o das relações de significação crítica e metafórica da realidade estão plenamente representados na obra dos artistas de descendência nipo-brasileira. Pode-se mesmo dizer que as linhas de atuação são tantas quanto os próprios artistas, marcadamente pessoais e ao mesmo tempo vinculados, com grande liberdade, a amplas artérias de inquietação verificadas em todo o mundo. A fronteira entre esses dois eixos é hoje de identificação difícil, tamanha é a riqueza e permeabilidade de sua mútua contaminação. Alguns artistas como Alice Shintani (São Paulo, SP Brasil 1971), Ayao Okamoto (Assai, PR, Brasil 1953) e Takashi Fukushima (São Paulo, SP Brasil 1950), por exemplo, são a própria assinatura desta ambigüidade.

Já outros, como James Kudo (Pereira Barreto, SP Brasil 1967), Futoshi Yoshizawa (Saitama, Japão 1964 / Chega ao Brasil em 1994), Nobuo Mitsunashi (Tokyo, Japão 1964) e Roberto Okinaka (São Paulo, SP, 1956), alinham-se a significações alusivas, simbologias fugidias e jogos de identidade, valendo-se de sugestões do corpo, da memória, da história, da sociedade contemporânea – brasileira e mundial – da religiosidade e de afinidades multi-culturais, identificando-se como o eixo referencial, alegórico e analítico. Há ainda alguns artistas como Yugo Mabe (Lins, SP, Brasil 1955), Taro Kaneko (Gália, SP, Brasil 1953) e Midori Hatanaka (São Paulo, SP Brasil), Que recorrem a vinculações conscientes à tradição pictórica japonesa, cada um a seu modo. Pode-se reconhecer em suas obras a preferência pela composição assimétrica, pelos planos bidimensionais de cor e pela construção arquitetônica, às vezes sugestiva de paisagens imaginárias. Seus trabalhos demonstram o quanto a origem ancestralmente nipônica tornou-se questão de opção estilística e de alusão cultural, mais que de identidade nacional ou inescapável atavismo.

Kimi Nii (Hiroshima, Japão / Chega ao Brasil em 1960) e Megumi Yuasa (São Paulo, SP Brasil), por exemplo, recorrem à materialidade e técnicas da tradição da cerâmica japonesa, levando-as, no entanto, a terrenos inéditos de autonomia escultórica, poética espacial, textura e depuração formal.

Ao falarmos desta geração, a que atua neste exato instante, lidamos com brasileiros em nascimento, coração e inserção criativa. São, sim, capazes de voltarem-se à contribuição histórica da cultura japonesa, mas tanto quanto quaisquer outros, todos nós, que vivemos em profundidade, a cada dia, a natural e irreversível fusão entre povos que compõem este vasto prisma de influências que chamamos de Brasil.


Os Atuais Artistas Nipo-BrasileirosYUGO MABE - Sem título - Coleção Família Mabe

Os Atuais Artistas Nipo-BrasileirosMARIO ISHIKAWA - Yankis Fuera de Vietna - 1968 - Serigrafia impressa em cetim - Coleção do artista


Os Atuais Artistas Nipo-BrasileirosKimi Nii - Gove - 2008 - Cerâmica de alta temperatura - Coleção da artista



Os Atuais Artistas Nipo-BrasileirosTaro Kaneko - Queda D’agua - 2007 - Acrílica sobre tela - Coleção do artista