Critérios de intervenção: restauro e reconversão

A ampliação do conceito de bem cultural nas últimas décadas alterou e tem alterado profundamente os “dogmas” empregados para a definição do que tombar e como restaurar. As estruturas dos órgãos oficiais de patrimônio no mundo todo passam por mudanças profundas. O architecteen- chef (cargo vitalício na França) preparado para enfrentar os intrincados problemas dos monumentos medievais depara-se hoje com o desafio de restaurar as turbinas de centrais energéticas ou de construções do movimento moderno. Nos países emergentes a questão é mais complexa. Ao contrário das nações européias, onde o crescimento vegetativo das cidades é insignificante, aqui, a expansão, alteração e renovação assumem uma dimensão inimaginável para os padrões do primeiro mundo. Estruturas vitais de um passado recente tornam-se obsoletas em poucas décadas, como no caso das centenas de instalações industriais à leste do Bairro do Brás em São Paulo. Os arquitetos e urbanistas tem que dar respostas imediatas para essas questões. Até parece que o difícil problema conceitual enfrentado pelos restauradores italianos no pós-guerra repete-se aqui cotidianamente.

A recente “reconstrução-restauração” do Teatro La Fenice em Veneza destruído por um dramático incêndio transmitido em tempo real pela mídia do mundo todo, coloca em debate outras questões não previstas nas cartas de restauro. Giuseppe Cristianelli afirma que a reconstrução neste caso não se qualifica como um falso, mas como o único ”ato com o qual este edifício pode ser reproposto”. Parece que neste caso isolado, incide aquela “quarta dimensão” do monumento enfatizada por Liliana Grassi. Não o tempo como fator de construção da imagem, mas o “tempo da memória vivenciada” pela geração atual que constrói o “vínculo subjetivo da comunidade” ou o sentimento de “pertença”, conforme nos ensinou o Prof. Ulpiano Bezerra de Meneses. O “tempo da memória” que impede e tenta negar o entendimento da coisa como ruínas arqueológicas. O Teatro La Fenice continuava a permanecer “potencialmente” sobre o vazio dos escombros como “imagem vivenciada”. Repetia-se o drama e a polêmica do Campanário de São Marcos há um século atrás.

Até mesmo na Itália – sede do encontro que resultou no primeiro consenso sobre a restauração em 1964 – posições diversas se ontrapõem e se justapõem no campo do restauro. As vertentes de pensamentos (Pura conservação, Posição central e Hipermanutenção) correspondem a uma subdivisão didática para a compreensão de problemas complexos onde correntes de pensamentos se aproximam e se afastam dentro de uma mesma vertente e, não raro, encontram algumas posições similares em pólos opostos.

Neste quadro movediço onde se assenta a problemática do restauro uma posição nos parece se revestir de especial interesse. Seria a “restauração arquitetônica” uma “disciplina autônoma” ou ela é parte de um contexto maior que é a Arquitetura? Se for o campo da Arquitetura o problema substantivo do restauro é o resultado final da expressão arquitetural do monumento, considerando as relações dialéticas entre a instância estética e a instância histórica, entre a forma e a função e entre a nova arquitetura e a arquitetura antiga.

Alguns estudiosos entendem que o restauro assumiu, desde o século XVIII e se consolidou no século XX, “o papel de campo disciplinar autônomo” em conformidade com os preceitos de Cesari Brandi (Posição central). Neste sentido, Giovanni Carbonara acha “perigosa” a atual tendência na Itália de “isolar os princípios do restauro arquitetônico daquele pictórico e escultórico”.

Dentro da mesma vertente da “Posição central”, Miarelli Mariani afirma o oposto, que “o restauro não é filosofia, não é ciência, não é técnica. Ele se encarna na arquitetura, pois é indubitavelmente arquitetura com finalidade determinada e original”. Mariani enfatiza ainda que, a “aproximação da história do restauro arquitetônico coloca em evidência um universo mutável e problemático, mas ainda conceitualmente claro nos seus termos essenciais, tanto que permite afirmar que a história do restauro arquitetônico é história da arquitetura”. Stella Casiello, uma das principais vozes da “Posição central” italiana, afirma que o restauro arquitetônico é uma questão projetual do arquiteto –“o único profissional que possui uma preparação seja técnica ou histórica”. Roberto Ballardini entende que ao restauro interessa, sobretudo, à arquitetura como “processo” e não como “objeto acabado”.

Paolo Marconi, cuja teoria em parte se aproxima da vertente da “Hipermanutenção”, apropria-se também do entendimento da restauração como integrante do universo projetual da arquitetura, onde o objeto arquitetônico também é apreendido como “processo” e não como produto do passado. A convergência de pensadores de correntes diversas sobre o restauro no quadro da Arquitetura foi demonstrada na elaboração da “Carta de 1987 da Conservação e do Restauro dos objetos de arte e de cultura” nascida da Convenção de 1986 do CNR – Consiglio Nazionale dellle Ricerche. A principal inovação em relação à Carta de 1972 (ainda vigente) foi a separação do restauro arquitetônico das normas do restauro de objetos artísticos móveis. A comissão de redação era composta por importantes intelectuais de correntes diversas, como U. Balddini (Diretor do ICR), Di Geso, P. Mora, G. Rizza, P. Marconi, Di Franco, etc.. Um dos objetivos dessa separação era isolar a “disciplina autônoma” do restauro de objetos móveis, do restauro arquitetônico regido pela “disciplina da Arquitetura”. Marconi assim se referiu a esta inovação apropriando-se de uma frase de Roberto Gabetti: “far rientrare l’architecttura nella sua storia”.

O entendimento do objeto arquitetônico ou urbanístico do restauro como “processo histórico” e não como “artefato acabado” significa apreender o objeto como “monumento vivo” em contínua transformação – a essência da Arquitetura e do Urbanismo. Apropriando-se da retórica exacerbada de Marconi, no caso do “monumento vivo” o arquiteto atua como um “médico” para salvaguardar a vida do paciente, e no caso do “monumento morto” atua como “taxidermista” para preservar um corpo que cessou o seu percurso histórico. A obra de arte, resultado da sobreposição de vários autores de épocas distintas, como a Igreja de São Pedro no Vaticano, atua através do fator tempo – externo à obra de arte original de Michelângelo – como a quarta dimensão da arquitetura - no entender de Liliana Grassi. Desta consideração apreende-se que “a relação entre o monumento antigo e a arquitetura moderna pode ser uma relação de integração e de coexistência”. Neste sentido, seria a negação de um dos princípios brandianos da incompatibilidade entre a arquitetura moderna e o tecido histórico antigo, e é a afirmação da obra arquitetônica como “processo”. Roberto Pane afirmou que “a tese da inconciliabilidade entre edificação nova e antiga se funda, em substância, sobre uma fatalística aceitação do fato consumado” e é absurda “por ignorar a evidente realidade histórica da estratificação” e por negar que essa estratificação “possa e deva chegar até o presente”. Do outro lado dos Alpes italianos, o debate do restauro se converge para uma quarta posição. Aquela que Giovanni Carbonara denomina pejorativamente de “pseudo teoria” destinada a “resolver a falência da cidade moderna”: reconversão, reuso, reciclagem, readaptação ou reapropriação.

Vamos adotar neste parecer a terminologia “Reconversão” já incorporada no “Novo Dicionário Aurélio”: Reconversão: Conjunto de intervenções arquitetônicas que visam, principalmente, a atualizar o acervo construtivo, viabilizando-lhe as utilizações para novo fim, uma vez respeitadas as características fundamentais da construção”. No início do século XIX na Itália os princípios do restauro que prevalecem até os dias de hoje se sedimentaram nas intervenções sobre os monumentos arqueológicos da antiguidade (Arco de Tito, Coliseu, Pompéia, etc..), enquanto na França as ações foram dirigidas para os “monuments vivants” – a arquitetura gótica. Na França desde o século XIX a questão do restauro arquitetônico esteve sempre vinculada à disciplina da Arquitetura.

A permanência do sistema centralizado no architecte-en-chef é um reflexo dessa postura. Também não é por acaso, que os grandes debates, congressos e seminários sobre o tema “arquitetura e reconversão”, e as grandes obras paradigmáticas do gênero como o Museu D’Orsay, o novo Louvre e o Museu Picasso ocorreram em solo francês. O sentimento de arrependimento causado pelo impacto da destruição do mercado les Halles no coração de Paris em nome de uma pretensa renovação urbanística, também, levou os novos arquitetos franceses a centrar o interesse para a necessidade da reconversão arquitetônica. Philippe Robert coloca a reconversão como um “problema da continuidade da escritura arquitetural”. A relação dialética entre a forma existente e nova função adequada por um programa compatível deve refletir o encontro da nova arquitetura com a arquitetura antiga. A recuperação do edifício que abrigou o Colégio Campos Salles só pode ser reproposta dentro dessa vertente conceitual. Os restos remanescentes não se reconfiguram como ruínas, ainda definem a espacialidade e, portanto, estamos ainda diante de uma arquitetura.

 
Critérios de intervenção: restauro e reconversãoPROSPECÇÕES E ESTATIGRAFIAS


Critérios de intervenção: restauro e reconversãoPROSPECÇÕES E ESTATIGRAFIAS


Critérios de intervenção: restauro e reconversãoPROSPECÇÕES E ESTATIGRAFIAS


Critérios de intervenção: restauro e reconversãoPROSPECÇÕES E ESTATIGRAFIAS


 Critérios de intervenção: restauro e reconversão ESQUADRIAS MODIFICADAS E VÃOS SEM ESQUADRIA - As esquadrias originais de madeira foram substituídas por janelas tipo vitrô de ferro e vidro. Ainda existem partes das esquadrias originais. Acima, imagem da situação das janelas da fachada principal da edificação


 Critérios de intervenção: restauro e reconversão ELEMENTOS DECORATIVOS DANIFICADOS - Frisos, barrados e capitéis estão em intenso processo de deterioração, perdendo inclusive sua integridade formal.


 Critérios de intervenção: restauro e reconversão COBERTURA FALTANTE - Varanda sem cobertura. Cobertura destruída durante incêndio. Ainda foram encontrados resquícios da cobertura original das varandas voltadas para os fundos da edificação.